Para a Revista Link to Leaders, o CEO do grupo Lisbon Project, Ricardo Carvalho, escreveu o artigo "War Games".

 

O mundo em que vivemos faz-me lembrar um argumento de uma série escrita por Terence Winter, na qual todos os protagonistas são maus e nos limitamos a simpatizar mais com um do que com outro, por uma questão de identificação.

Tal como em Os Sopranos estamos perante duas grandes famílias: a China e os Estados Unidos da América. A guerra diplomática entre dois países influência transversalmente o resto do mundo, mas os média, naturalmente, dão mais relevância aos (des)acordos de comércio, ao controlo tecnológico relacionado com o 5G e a internet das coisas, ao controlo e influência regional, nomeadamente ao avanço da Nova Rota da Seda, e às grandes fusões e aquisições de empresas consideradas estratégicas.

Parafraseando Clive Humby “data is the new oil”, como tal, entendo perfeitamente o medo provocado nas mentes ocidentais pelo avanço, omnipresente, de uma rede social chinesa como o Tik Tok. Na mesma medida, entendo o que motiva a tentativa do principal regulador de dados da União Europeia, a Comissão de Proteção de Dados da Irlanda, de suspender a transferência de dados do Facebook, da Europa para os EUA. No entanto, há um setor que, de alguma forma, é deixado fora do radar mediático: a indústria dos jogos.

Segundo a Super Data Research, empresa de business intelligence focada em jogos, adquirida em 2018 pela Nielsen, este setor de atividade, em 2019, gerou 120 mil milhões de dólares a nível mundial, superando as receitas conjuntas das indústrias da música e cinema. A pandemia não veio desacelerar esta tendência. Para quem tem filhos, durante o confinamento, os jogos foram a primeira linha de defesa contra o vírus.

É por isso estranho que o avanço do investimento chinês nesta indústria passe relativamente despercebido na agenda mediática mundial. E não é coisa pouca, senão vejamos: todos já ouvimos falar do Fortnite, o jogo que ensinou os nossos filhos a dançar e a disparar, o que talvez não saibam é que o gigante chinês Tencent – que tem mais de 300 empresas participadas com destaque para o WeChat – detém 40% das ações da Epic Games.

A aposta no setor não é de hoje. Em 2011 a Tencent investiu 400 milhões de USD na Riot Games – que desenvolveu o título “League of Legends” e segue, segundo a Pc Gamer, com mais de uma dezena de participações associadas a esta indústria. O gigante chinês aposta com critério, pois sabe bem que o ouro está nos jogos que correm nos nossos telefones, sendo deste segmento que provém 60% das receitas da empresa relativas ao setor.

Não sei se Donald Trump e os seus assessores percebem o crescimento que os jogos vão continuar a ter em mobile, com o 5G, sendo as possibilidades infinitas. Será, provavelmente, a morte das consolas como as conhecemos.  Em agosto passado, o presidente americano baniu qualquer transação relacionada com plataforma Wechat mas, rapidamente, clarificou que a sua ordem executiva não afetaria as empresas de jogos. A Tencent, sendo o maior investidor do mundo nesta indústria, agradeceu. Por agora.

Para entendermos a importância do setor, no início de 2019, o CEO da Netflix, Reed Hastings, disse aos seus acionistas que os jogos eram a sua verdadeira concorrência. Na arena do entretenimento já não se joga apenas, são promovidos eventos virtuais como o concerto de Travis Scott no Fortnite que, através do seu avatar atuou para uma audiência de 12,3 milhões de jogadores, ainda assim, um número muito abaixo dos 100 milhões de espetadores que assistiram ao Campeonato do Mundo do League of Legends.

Nos próximos anos, a inteligência artificial associada ao potencial do 5G vai permitir possibilidades infinitas, com narrativas que nos envolvem e nos permitem evadir sem destino no mundo virtual. O domínio dessas narrativas e, claro está, da tecnologia, tem um valor inestimável para quem as controlar.

Diz-me o que jogas, dir-te-ei quem és, é uma afirmação que cada vez mais faz mais sentido. Resta-nos manter a nossa identidade não abdicando das relações humanas no mundo real.