Para a Revista Link to Leaders, o CEO do grupo Lisbon Project, Ricardo Carvalho, escreveu o artigo "Igualdade... até que a morte nos separe".

 

Escrevo mais um texto sobre a pandemia de COVID-19 na esperança de não voltar a abordar o tema. Esperança, essa, injetada por uma vacina milagrosa que será sempre a última a morrer. No entanto, sinto-me na obrigação de voltar a este tema, devido a uma verdade insofismável que oiço na rua e na opinião publicada que refere que o vírus é devastador e veio mostrar que somos todos iguais.

Lamento, mas, não me parece ser verdade. Os fatos assim o demonstram e temo que os próximos doze meses aprofundem a noção de que vivemos num mundo desigual. Esta evidência é propalada ao mais alto nível: nomeadamente pelo secretário geral das Nações Unidas que, no passado dia 1 de outubro referiu, que “a menos que atuemos agora, a COVID-19 pode apagar uma geração de progresso frágil”.

António Guterres referia-se à igualdade de género e ao impacto brutal provocado pela perda de emprego em mulheres que trabalham na economia informal, sobretudo nos países de “terceiro mundo”. A ausência de “rede social” e de estabilizadores automáticos são, naturalmente, fatores que agudizam o impacto da pandemia na sociedade, mas, olhando para países desenvolvidos podemos verificar que a raça, o setor de atividade e o nível de rendimento têm uma influência muito relevante sobre o nível de contágio e, consequentemente, sobre a mortalidade.

Senão vejamos, segundo os dados apresentados no artigo “The Plague Year” na revista “The Economist”, um hispano-americano de 40 anos tem 12 vezes mais probabilidade de contrair coronavírus do que um americano caucasiano da mesma idade. Em São Paulo, no Brasil, negros com menos de 20 anos têm o dobro da probabilidade de morrer relativamente aos seus compatriotas brancos na mesma faixa etária.

A relação com o nível de rendimento está diretamente relacionada com a possibilidade de trabalhar remotamente. Nos Estados Unidos da América, 60% dos empregos com rendimento acima de 100.000 USD por ano podem ser realizados em casa, comparando com apenas 10% de quem recebe apenas 40.000 USD por ano.

Em Portugal, o impacto da pandemia no rendimento é um mapa da desigualdade socioeconómica do país. As conclusões do Barómetro COVID-19, projeto de investigação da Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade NOVA de Lisboa, revelam que uma em cada quatro pessoas que ganham menos de 650 euros perderam a totalidade do seu rendimento, acontecendo o mesmo a apenas 6% de quem ganha acima dos 2500 euros.

No sentido inverso, na análise à distribuição de casos de contágio nos 308 concelhos do país, as regiões com maior taxa de desemprego e consequente perda de rendimento têm maior número acumulado de casos de coronavírus. Infelizmente, o cenário traçado para 2021 indica que a desigualdade vai piorar, antes de melhorar. A projeção do Banco de Portugal prevê que o PIB nacional vai cair cerca de 8% em 2020, num país que cresceu apenas 0,35% ao ano desde o ano 2000….

A pandemia obrigou a fechar setores de atividade económica supostamente para nos salvar a todos. A urgência em preservar vidas e não sobrecarregar o Serviço Nacional de Saúde assim o determinou, mas é fundamental fixar políticas fiscais de exceção agressivas e incentivos (estou a falar de dinheiro), que permitam o relançamento de negócios que tiveram o azar de ficar do lado errado da crise.

É de uma justiça elementar que não se sacrifique uma parte substancial da população sendo que a limitação de exercerem a sua atividade profissional e criarem riqueza condiciona, fortemente, as suas condições sanitárias. A independência económica e financeira de cada um de nós está intimamente ligada ao sentido de liberdade. É urgente curar o país do flagelo do desemprego e, consequentemente, a desigualdade que este gera.